O Agente Secreto | Crítica
Apesar do Oscar ignorar por muitos anos grandes produções estrangeiras, o Brasil vem ganhando cada vez mais espaço em premiações internacionais e a aposta da vez é “O Agente Secreto“, de Kleber Mendonça Filho.
O ator Wagner Moura já estampou as redes sociais do Oscar e ganhou elogios em veículos internacionais por interpretar Marcelo, um especialista em tecnologia que vai para o Recife dos anos 70 tentando fugir do próprio passado.
A cidade rapidamente revela uma atmosfera tensa, vigiada e repleta de pessoas que, como ele, tentam sobreviver à sombra opressora da ditadura militar.
Mendonça não expõe o regime de maneira óbvia, como Walter Salles em “Ainda Estou Aqui”, mas o insere de maneira silenciosa, perceptível nos desaparecimentos sem registro, nos codinomes usados para sobreviver e na presença constante de matadores de aluguel.
Wagner Moura constrói seu personagem em camadas e entrega uma atuação que transita entre vulnerabilidade, cautela e urgência. Ele é um refugiado, mas também um pai que tenta manter o vínculo com o filho. É um marido que sente a ausência da família e um homem determinado a descobrir a verdade sobre a mãe.
Seus passos são acompanhados por dois matadores de aluguel contratados por uma figura importante revelada ao longo da história como uma desavença de Marcelo, carregada de preconceito, intenções obscuras e conservadorismo.
Acompanhamos a trajetória do protagonista não só pela própria narrativa, mas também por gravações transcritas por duas jornalistas nos tempos atuais. E a cada revelação, surgem novas perguntas: ele conseguiu viver com o filho? Fugiu dos matadores? Achou os documentos da mãe? Afinal, deu tudo certo?
Lendas urbanas, imprensa e manipulação
O filme também desloca parte de sua força para o Edifício Ofir, comandado pela magnética Dona Sebastiana (Tânia Maria). Ela acolhe um grupo de pessoas que também fugiram de seus destinos. Entre eles, imigrantes, mulheres e homossexuais. Mas Sebastiana também carrega seu próprio passado de dores e Kleber Mendonça sabe dar um olhar a essa comunidade com cuidado e densidade.

Assim, Recife pulsa como personagem. Os telefonemas secretos em orelhões, as ruas que escondem segredos e o pequeno cinema administrado pelo sogro de Marcelo (Carlos Francisco), onde “Tubarão” domina a tela e as salas recebem encontros clandestinos, reforçam a trama.
E, em meio às tensões, Kleber insere camadas de crítica social e simbologias urbanas, como a lenda da “perna peluda”. Ela é tratada pelos tabloides sensacionalistas como explicação para problemas sociais e ataques soturnos.
Ao lado da investigação sobre um corpo descartado na água, o mito funciona como metáfora da fabricação de narrativas, e abre espaço para o filme abordar a distorção da imprensa, o apagamento de provas e a cumplicidade das instituições na manutenção da violência.
“O Agente Secreto” é um filme sobre sobrevivência, segredos, memórias e expõe como um sistema opressor molda os destinos. Kleber Mendonça Filho constrói uma obra afiada e entrega uma trama cheia de personalidade e brasilidade.

