Salve Rosa| Crítica
Em um mundo onde crianças e adolescentes são expostos o tempo todo nas redes sociais, “Salve Rosa” chega como um alerta urgente sobre a adultização infantil e a exploração de menores.
Dirigido por Susanna Lira e estrelado por Klara Castanho e Karine Teles, o filme mergulha nas consequências emocionais e psicológicas de transformar a vida de uma criança em produto.
Na trama, Rosa e sua mãe, Dora, se mudam para um condomínio fechado no Rio de Janeiro. Dora é o tipo de mãe que vive em função da carreira da filha, administrando cada passo, cada postagem e cada sorriso.
À primeira vista, é apenas uma mãe dedicada. Mas, aos poucos, o filme revela o controle e as manipulações por trás dessa “dedicação”. Mas quando Rosa desmaia na escola, começa a investigar o próprio passado e a perceber que sua mãe esconde muitos segredos dela.
A infância vendida em nome de engajamento
Susanna Lira transforma o drama em desconforto. O filme é repleto de cenas aparentemente inofensivas, mas que deixam o espectador em alerta.
Como quando Dora acorda a filha no meio da madrugada para gravar um vídeo na chuva, exigindo que ela sorria para os seguidores. Ou no aniversário de Rosa, quando a menina quer apenas brincar, mas é forçada a gravar publis de brinquedo.
As frases dita pela mãe carregam sempre uma chantagem velada: “Se você não quer tudo bem, não estou te obrigando. Seus seguidores vão ficar chateados com você, mas você quem sabe“. Ou “Eu abri mão de tudo por você, mas tudo bem“.

Fora das câmeras, as outras crianças sonham em ser como Rosa. Querem o quarto com um cenário dentro, os brinquedos que ela divulga, o número de engajamento.
Mas o filme foca principalmente no que acontece quando as câmeras desligam. “Salve Rosa” não aponta só o dedo para quem explora, mas também aos espectadores, que consumem e alimentam essa lógica de performance o tempo todo ao seguir, curtir e compartilhar.
Karine Teles está impecável. Sua personagem é uma mulher de aparências, construída sobre camadas. Ela é o retrato do narcisismo materno adaptado à era digital.
Já Klara Castanho entrega uma atuação impressionante, com uma vulnerabilidade que atravessa a tela. A atriz de 25 anos convence completamente como uma menina de 13, o que torna as cenas ainda mais incômodas de assistir.
“Salve Rosa” traz a reflexão sobre o consumo de conteúdos infantis e até onde nós também contribuímos para que outras “Rosas” passem por situações parecidas. Até onde as pessoas vão em nome do engajamento e o quanto a sociedade naturaliza a perda da infância como parte do entretenimento?

