Vitória|Crítica
Baseado na história real de uma senhora que expôs uma rede de tráfico e corrupção policial no Rio de Janeiro, “Vitória” traz a potência de Fernanda Montenegro em cena e prova que o cinema nacional tem muitas históricas incríveis para contar.
Dirigido por Andrucha Waddington, o longa acompanha Nina, uma idosa solitária que vive em um bairro vizinho a uma comunidade carioca.
Enfrentando uma rotina de medo constante, com balas perdidas atravessando sua janela e o barulho incessante dos tiroteios do crime organizado, ela busca ajuda da polícia.
Mas ao descobrir que eles também estão envolvidos, ela se sente traída pelo sistema que deveria protegê-la, e toma uma decisão improvável: compra uma filmadora e começa a registrar provas de tudo o que acontece ao seu redor.
Fernanda Montenegro entrega uma performance que equilibra fragilidade e uma força implacável, dando à sua personagem uma profundidade comovente.
Em muitos momentos, a solidão é sua única companhia, reforçando a sensação de isolamento e impotência.
Entretanto, sua relação com Marcinho (Thawan Lucas) — um garoto da comunidade que a ajuda a carregar compras em troca de alguns trocados para sustentar a mãe — adiciona uma camada emocional crucial à narrativa.
Em uma atuação sensível e impactante, Thawan Lucas transmite com intensidade a transição de um menino inocente para a imersão ao tráfico.

Outro ponto de apoio para a protagonista é sua nova vizinha, Bibiana (Linn da Quebrada), que, apesar das tensões, também traz momentos de respiro e cumplicidade.
A cena delas dançando, duas pessoas ignoradas por uma sociedade preconceituosa, mas também sendo o pilar uma da outra, é lindo de ver.
O preço da verdade
O filme consegue causar no público indignação ao retratar o completo descaso em relação à Nina. Ela se torna uma voz solitária tentando provar que os moradores da região são vítimas diárias da violência e da conivência das autoridades.
Com a ajuda do jornalista investigativo Flávio (Alan Rocha), ela se arrisca para tentar romper esse ciclo de impunidade.
Um dos momentos mais marcantes da trama acontece quando sugerem que ela mude seu nome para Vitória e vá embora. A resposta ecoa como um manifesto de resistência: “A senhora está me dizendo que eu preciso morrer para não morrer? Eu não vou sair daqui. Eu não sou bandida.”
O longa também acerta ao colocar o espectador na mesma posição de observador que Nina. A sensação de perigo constante, a qualquer momento podendo ser descoberta, mantém o público em alerta.
A direção de Andrucha consegue transformar o que antes era um lar acolhedor em uma prisão sufocante para a protagonista.
Na vida real, Joana Zeferino da Paz viveu por décadas em sigilo, e sua identidade só foi revelada após falecer. Mas sua coragem ficou eternizada.
“Vitória” é um filme poderoso que não apenas provoca reflexões sociais urgentes, mas também dá ao público o privilégio de assistir a uma das maiores atrizes do Brasil, reafirmando seu lugar na história do cinema. Viva as Fernandas!